terça-feira, 4 de agosto de 2009

Asfixia

Hoje eu mastiguei uma cidade inteira. Negros, velhos, mestiços, jovens, todos estavam a me roer o estômago.

Eu já não me sentia senão uma estátua oca por onde desfilam pequenos germes.

HOJE EU ENGOLI O MUNDO E COSTURARAM MINHA BOCA COM AÇO.

(09/08/2004)

sábado, 17 de janeiro de 2009

O outro

Essa coisa que paira na superfície entre o ar e o chão, quase sempre à altura de meus olhos (distando alguns centímetros acima ou abaixo, dependendo do caso). Essa coisa armazenada por um complexo de pele, cabelos e gestos. Essa coisa acrescida de roupas, sapatos, cheiro e som. Essa coisa que se parece comigo, mas não sou eu, é o outro.
Essa coisa que eu não entendo, pois sou incapaz de entender a mim mesma. Essa coisa estranha que esbarra na minha existência. Essa coisa que horas eu desejo, horas eu repugno. Essa coisa que me é opaca ou reflexa. O outro, o outro, o outro.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Rodin à moda nordestina

Àquela hora da manhã, a vida desmanchava-se em uma melancolia azul celeste. Meus pés seguiam o asfalto, sem pressa. Eu me esgueirava por entre alguns carros e trabalhadores da construção civil que apareciam nas esquinas. Caminhava, cabisbaixa, pensando na grama que nascia nas frestas das calçadas e nas lágrimas que eu acabara de derramar na sala da psicóloga.

De repente, quando a sola da sandália inaugurava um novo quarteirão, meus olhos encontraram um homem, logo à frente, sentado à beira de um portão. Tinha o rosto oculto pela sombra e o queixo pendendo sobre a mão esquerda, empurrando o cotovelo contra o joelho.

Imaginei que ele também havia sido contagiado pela melancolia azul. Mas o que ela lhe trazia? Estaria pensando também na grama que nascia na fresta das calçadas? Enquanto eu me aproximava, o eclipse ia-se desfazendo de sua face, libertando-a e fazendo-a girar em minha direção. O que eu veria no breve instante em que meus olhos encontrassem os dele? Lágrimas?

Então, eis que ele irrompe da imobilidade, fita-me com lascívia e, meneando a cabeça, expõe a filosofia do macho nordestino:

- Ô, saúde perfeita, mulher!

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Faço minhas as palavras de Pasternak

"Gente sem nome está junto de mim,
são árvores, meninos, sedentários. "

(Trad. Haroldo de Campos)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Beethoven para todos

Uma tarde, acompanhada de Vivaldi II[1] e de minha melhor amiga, eu aguardava o ônibus em direção a um passeio nostálgico pelo Centro da cidade. Eis que uma voz ressoa sorridente:

– Coração de Jesus, Praça do Carmo, Praça da Bandeira, Temberge, Sargento Hermínio...Vamos, moças?! – Era o famoso grito de guerra da Topic[2] 53.

Confesso que cedemos aos encantos do rapaz, que, gentilmente nos conduziu ao interior do veículo. Procuramos alguma cadeira vaga, nada. Só nos restava aguardar ali, naquele cantinho, em pé, próximo ao moço educado (para fins didáticos, chamarei de cobrador). Aproveitei a ocasião para me certificar sobre a rota:

– Moço, essa Topic passa próximo ao José de Alencar?

– Passa sim, moças!

E, como se esperasse uma deixa, prosseguiu:

– Vocês vão para o Teatro? Que maravilha! Eu adoro peças! Mas lá também tem música, né? Eu adoro música! Tenho um primo que é dançarino daquela banda dos cubanos, como é mesmo, meu Deus, o nome...

– Capim Cubano.

– Isso! É esse nome aí. Mas eu não gosto não, sabe. Gosto mesmo é de música clássica. Beethoven, você conhece o Beethoven?

– Sim, sim, conheço. Gosto muito! – a essa altura, eu e o restante dos passageiros, já estávamos admirados com tamanha erudição.

– Pois veja só. Eu adoro música clássica, mas esse motorista, afe Maria! Olhai o que ele ouve! Só forró! Nam! – proferiu em alto e bom tom.

Não é todo dia que encontramos um cobrador boa-praça, apreciador de Beethoven. Então, tive que dar continuidade ao colóquio:

– Mas que interessante que você goste de Beethoven! O que mais você gosta de ouvir?

– Ah, eu gosto do Mozart, do Wagner... – (Poxa!) – eu até fui para uma ópera lá em São Paulo. Quem estava lá era um desses tenores famosões. Vá dizendo aí o nome aí pra eu ver se me lembro.

– Hmm...deixa ver...Pavarotti?

– Não...

– José Carreras?

– Também não... Ah, não me lembro agora. Só sei que levei até um copo de cristal para ver se quebrava. Foi a minha cunhada que mandou.

– E quebrou?

– Quebrou nada! Fiquei lá segurando o bicho pra cima e nada! Mas o show foi bonito demais!

– Ora, mas é isso que importa!

– Bom, meninas, vocês vão descer na próxima esquina. Vão com cuidado. E respondam: essa Topic é muito divertida, não é?

Bom, moço educado, é tão divertida que estou aqui compartilhando com outros passageiros virtuais. E fica a minha dica: caso vocês estejam por aí, de bobeira, e ouvirem algum rastro de Beethoven vindo de uma 53, embarquem!

[1] Vivaldi é o nome de família dos meus violões.
[2] Essa é a denominação mais popular para os transportes alternativos em Fortaleza.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

O começo do começo

O começo do começo era nada. Mas o nada não existe "palavreadamente" falando. Assim sendo, o nada do começo do começo era o caos (em sentido sublime). Uns adoraram, outros acharam estranho.

Tudo bem, compreendo. Fomos mesmo criados para cada coisa ficar no seu "devido lugar". Atores devem ficar no palco e os poetas nos livros. E mandar antropocidades para pessoas é quase como jogar mísseis em suas caixas de e-mails. É algo mesmo assustador! Eu e minhas manias terroristas poéticas...

Muitos acham mesmo que os animais selvagens devem ficar no circo para que todos possam, confortavelmente, aplaudir. E palmas e risos só nas horas adequadas, hein!

Já que a coisa é assim, criei um blog para não deixar os animais soltos nas ruas da minha imaginação, perseguindo pessoas indefesas pelas caixas de e-mails.

Bom espetáculo para tod@s!

Katiusha

(Aplausos, por favor!)