Àquela hora da manhã, a vida desmanchava-se em uma melancolia azul celeste. Meus pés seguiam o asfalto, sem pressa. Eu me esgueirava por entre alguns carros e trabalhadores da construção civil que apareciam nas esquinas. Caminhava, cabisbaixa, pensando na grama que nascia nas frestas das calçadas e nas lágrimas que eu acabara de derramar na sala da psicóloga.
De repente, quando a sola da sandália inaugurava um novo quarteirão, meus olhos encontraram um homem, logo à frente, sentado à beira de um portão. Tinha o rosto oculto pela sombra e o queixo pendendo sobre a mão esquerda, empurrando o cotovelo contra o joelho.
Imaginei que ele também havia sido contagiado pela melancolia azul. Mas o que ela lhe trazia? Estaria pensando também na grama que nascia na fresta das calçadas? Enquanto eu me aproximava, o eclipse ia-se desfazendo de sua face, libertando-a e fazendo-a girar em minha direção. O que eu veria no breve instante em que meus olhos encontrassem os dele? Lágrimas?
Então, eis que ele irrompe da imobilidade, fita-me com lascívia e, meneando a cabeça, expõe a filosofia do macho nordestino:
- Ô, saúde perfeita, mulher!
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Um comentário:
Essa abordagem é o exemplo máximo da "sutildade" de nossa gente. rsrsrs
Já a tua abordagem é outra e melhor, diria. Toca o homem? Mais, toca a sombra.
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